terça-feira, 13 de julho de 2010

A Divina Increnca

Finalmente algo que justifica a primeira frase no cabeçalho deste blog: "O músico como ser pensante".
Há exatos 4 dias ouço quase que ininterruptamente (rítmica palavra) o CD a Divina Increnca.

A história toda é muito bem contada por Lucas Rodrigues de Campos no http://so0jornal.wordpress.com/jazz/divina-increnca/ :

"A Divina Increnca [DI] não foi só uma banda, nem um disco, foi além. Um conceito que extrai ao máximo o significado do título de um livro que encantou Azael, logo que este leu uma resenha na Folha de São Paulo escrita por um amigo dos tempos de universidade. Alexandre Marcondes Machado (1892 – 1933) encarnou Juó Bananére para registrar a italianada paulistana dos anos 20, as bellas figlia lá do Bó Ritiro, e (porque não?) para almejar a Gademia Baolista de Letras. Da vanguarda de 1922 para a segunda metade da década de 70: um estudo ao âmago do fazer música. Azael Rodrigues, baterista da banda define: “Divina Increnca era uma síntese do som do grupo. O nome é/era perfeito porque expressa a tensão dos contrários e faz essa brincadeira com o que é iconoclasta, o Divino”. Divina seria o som mais refinado, mais respeitoso para eruditos ranzinzas, e a “Increnca uma vontade de explorar, de tocar de forma jazzista”.

Azael Rodrigues passou pelos bancos do Depto. de Música da ECA. Digo "passou" porque ele, com toda a sua agilidade de grande baterista e pensador, nem siquer foi arranhado pelas garras da tutela do então diretor Olivier Toni: "Eu ficava me coçando querendo fazer alguma coisa, falando com todo mundo, mostrando meus temas no violão". De lá ele tirou o que de melhor havia: contato com as obras de Varèse, Ives, Cage, Cowell, a turma toda do dodecafonismo, eletro-acústica e etc, nas aulas do Willy Corrêa e a grande sacada humorística do Premeditando o Breque. Aulas e grupo que eu frequentava como ouvinte.
Azael Rodrigues e Felix Wagner fizeram a dupla Divina Increnca que mais tarde agregou Rodolfo Stroeter (deixo aos leitores o prazeroso trabalho de busca na web,qualquer Google resolve essa questão).



"Like a message in a botle"...sexta-feira, 26 de maio de 1978, ainda sem o Rodolfo, aparecem aqueles meninos no palco do Masp. No programa, papelzinho cor de rosa, mostraram a que vieram:



Passagem meteórica pela pequena aldeia conservadora e reacionária da grande cidade S.Paulo. Um verdadeiro luxo em meio ao lixo cultural do momento onde a inteligentzia paulistana só saía de casa depois de ler a coluna do JT que, diante da evidência, não teve como não indicar.

O caminho percorrido pela a Divina Increnca era previsível, nas palavras de Azael: Leve, ele se apresenta, te envolve, dá o bote e se manda. Bem ao estilo da época onde a evasão e a ordem de dispersar não era privilégio das passeatas e como bem respondeu Tom Jobim à pergunta de um jornalista: "Qual é a saída para o músico brasileiro?" Tom respondeu: " O aeoporto". De 1978 a 81 lotaram teatros onde os deixavam tocar.
O inesperado foi o lançamento do CD, 26 anos mais tarde, mantendo a capa do Miécio Café, o poema do Juó Bananére, o trabalho cuidadoso em cima de cada criação musical e o delicioso e lúcido texto de Azael : "Crônica da busca da batida perfeita".

Além da música que tem ressoado da minha janela durante os últimos 4 dias, para total perplexidade dos moradores deste condomínio de classe média onde vivo, o que tem ocupado meu pensamento é a questão do envolvimento com o trabalho musical. Os garotos do A Divina, e em especial o Azael, tinham um compromisso visceral com o que criavam. Minha experiência pessoal passa por um tremendo insight que ocorreu num desses shows do a Divina quando ouví a bateria totalmente melódica e vibrante, mudança total de conceito, dialética, nada de esperar a bola da vez do solo, música viva o tempo todo. O incômodo, a encrenca é exatamente essa: lançado ao mar em 78, aquele papelzinho cor de rosa do Masp é muito mais que uma mensagem, é uma bomba na consciência cansada e acomodada da música que percorre os teatros e CDs de hoje:  modismos bem comportados  à espera de um público que reage à altura do que se apresenta: amortecidamente. Tudo muito bem acondicionado, direitinho, equilibradinho. Uma críticazinha aqui, outra alí. Uma carinha bonita estampada e bem vestida pela griffe da hora, uma vozinha educada, um mocinho meio rebelde, um espaçozinho light, legal...é isso aí, laiáraiá, e vamu que vamu...
Azael lembra-me outro dia do Itamar saindo de dentro de um enorme ovo no palco. Sodades de Zan Paolo.






segunda-feira, 10 de maio de 2010

Brasil: Democracia Facial.Todos têm o direito de ser Cara de Pau!

O sr. Danilo de Santos Miranda, diretor do SESC, afirmou que não cumpre a Lei Estadual que desobriga a filiação do músico à OMB porque a lei é estadual.
Da próxima vez que eu for aos SESCs de S.Paulo, fumarei um maço de cigarros, porque a lei antifumo é também estadual. Se eu vier a falecer de enfizema pulmonar, pelo menos não morrerei de raiva.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Daniel Zamalloa : Llaqtaypa Violincha




"The 20-page booklet that accompanies the CD contains lyrics, translations, explanatory notes, violin tunings, instrumental configurations, and the history of the violin in Peru, beginning with the arrival of the rabel - a precursor of the violin - in the 16th century."

 http://www.cdbaby.com/cd/zamalloa
http://www.danielzamalloa.com/home.html



Daniel Zamalloa nasceu em Cusco e toca violino desde criança. É também exímio violonista, bandolinista, maestro, compositor e arranjador.
Além de excelente músico Daniel impressiona por sua generosidade e delicadeza que se revelam não só no cuidado com a sua arte mas também no trato com as pessoas que dele se aproximam. Foi o que pude constatar quando, em 1974, tive o imenso prazer de conhecê-lo. Já naquela época, há 36 anos atrás e portanto bastante distante da idade da razão, o que importava para ele era tocar o máximo de tempo possível. Compartilhei dessa imensa voracidade musical ao seu lado e tocávamos durante horas a fio num lindo pátio da casa de Vladimir Herrera em Cusco, outro grande personagem, poeta e escritor peruano, mas que, na época, ainda sonhava sê-lo.
Daniel me levou através de pequenas cidades e povoados incrustrados nas serras e vales de Cusco onde tocávamos em lugares que eu nem suspeitava pudessem existir. É difícil imaginar a música que fazíamos mas o fato é que este som ainda hoje é lembrado por pessoas que o compartilharam conosco como "momentos  de um raro entrosamento e cumplicidade". É também assim que hoje me lembro deles, e dele.
Mas, então, esse encontro nada mais era do que algo efêmero e passageiro que ocorria na vida de dois jovens apaixonados. O que torna o momento valioso é a recordação e, através dela, a imagem, o que está além de e imerso na semelhança. Ano passado encontrei o site de Daniel Zamalloa na Internet, inúmeros vídeos no youtube, comentários sobre seus CDs. Com muita alegria reestabelecemos a comunicação. A profusão de detalhes que encontramos em nossas reminiscências foi muito bem qualificada por um querido amigo como "uma experiência proustiana".
Há sinais evidentes na música que ambos compomos atualmente  daquilo que um dia compartilhamos: minhas melodias modais, suas harmonias caminhantes. Recebí dele tres CDs e uma canção de sua autoria: Alfamayo, que transpõe para a arte os momentos vividos em uma cabana de pedra e palha numa aldeia homônima de la sierra cusqueña. Dessa maneira a recordação adquire significado além do pessoal. O álbum de recordações é libertado, sai do armário, da sala de visitas.

Hoje Daniel Zamalloa vive na Califórnia e frequentemente retorna à sua cidade natal para documentar e gravar os músicos tradicionais peruanos. (E às vezes para alimentar filhotes de llama).
Neste CD de Daniel Zamalloa: Llaqtaypa Violincha - está registrado mais do que a dedicação laboriosa de um grande músico. A riqueza de detalhes na interpetação de cada ornamento delicado,  a preocupação em definir cada característca regional revelam sabedoria e conhecimento adquiridos durante toda uma vida.
Nos demais CDs, a busca de novas configurações para o motivo regional, de extrema sutileza. Pretendo postá-los aqui, com a devida autorização do autor, mas há referências em seu site oficial.

Não me surpreendeu, absolutamente, o alto nível de qualidade deste trabalho, não se poderia esperar outra coisa vinda de tão rica fonte.
O que intriga é o fato de que o Peru é um país que faz fronteira com o nosso, de que Cusco é muito próximo e de que quase nada sabemos de sua música, de suas semelhanças e diferenças, por exemplo, com  a nossa rabeca do sul e do norte. De fato isso não é surpreendente, visto que somos todos títeres teleguiados pelas  estratégias e leis de um mercado truculento onde o gosto e a afinidade carecem de significado. Aceitamos plácidamente nossa ignorância e como artistas nos comportamos como os turistas que cristalizaram o Peru no tempo dos Incas. Os novos músicos peruanos seguem trabalhando e compondo. A música Criolla peruana, de origem negra, tem grande circulação e expressão em outros países em que o público não permanece tão alheio. Neste exato momento acontece em Lima um Festival de percussão http://www.cajonfestival.com/ . (Há um grupo brasileiro participando: Trio Mano a Mano que tem o clarinetista Sergio Albach entre seus integrantes). E não há nem vestígio de divulgação. Será que não há afinidades ou interesse? A mídia brasileira acha que não. E os artistas brasileiros...

Transcrevo o que o poeta Vladimir Herrera comenta a esse respeito em nossa correspondência:
" - Es curioso cómo la separación histórica de Portugal y España viviendo de espaldas la hemos trasladado a nuestro continente. Da risa que fascistas como Franco y Salazar se ignoraran hasta el sarcasmo. Todo eso no podrá suceder en esta parte de américa del sur."

Que se cumpra a inspiração do poeta!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Coral Luther King e Série "Cantador, só sei cantar"


No programa: tradicionais portuguesas, catiras, indígenas brasileiras, e outras tantas.Lembrando duas datas importantes: A Revolução dos Cravos (Portugal, 25 de abril de 1974) e o assassinato de Martin Luther King ( Memphis, Tennessee, 04 de abril de 1968)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Vocacional: uma escola que deu certo

Pouca gente sabe que o Brasil teve uma das escolas públicas mais ousadas e ínovadoras da história, não só do Brasil, mas do ocidente. Não posso falar a respeito de outros lugares do mundo, mas Ocidente já está de bom tamanho.
Se demorei pra tocar no assunto neste espaço foi porque não sabia qual a melhor abordagem. E acabei optando por uma delas, a que realmente me liga ao Vocacional: a abordagem emocional e afetiva.
Não considero esse aspecto menor, muito pelo contrário: quem dentre a grande maioria, pode se lembrar da escola como de um lugar no mínimo aprazível? A grande maioria das pessoas se refere aos tempos escolares com saudades, mas dos amigos, dos ex-colegas, de um tempo de juventude ou infância. Raros, raríssimos são aqueles que podem dizer que têm saudades das aulas de matemática,do diretor, do professor de química, da prova de Português. E principalmente,das conversas com a orientadora pedagógica! Eu tenho muitas saudades da Evair, grande orientadora mesmo.

Em 1967, aos 11 anos de idade, entrei na 1ª série do Vocacional Osvaldo Aranha, mais conhecido como o "Vocacional do Brooklin". O bairro de classe média alta me intimidou um pouco, eu que recém havia mudado de um bairro da periferia de Osasco para a Vila Mariana, admirava a modernidade das habitações, as casas com grandes jardins...quem seriam os alunos daquela escola?
As aulas começavam às 7:15 da manhã. E duas vezes por semana terminavam às 16:30. Esses eram os melhores dias, dias da "Opção". Como diz a palavra, opção eram as aulas que o aluno escolhia para desenvolver: Artes Plásticas (AP), Artes Industriais (AI), Economia Doméstica (ED), Práticas Comerciais (PC). Essas 4 matérias faziam parte do currículo, mas o horário de Opção aprofundava esses conhecimentos.
Nesses dias almoçávamos na escola. As equipes de alunos se alternavam na preparação, limpeza e atendimento do refeitório. Aproveitávamos para aprender algumas receitas com os cozinheiros. Mas essa parte de cozinha ficava por conta de ED. E havia as aulas de "Projetos". Eu participava do Projeto de Flauta-doce e do Coral. Participei também de outros projetos, de Português, entre tantos outros. E nas opções passei por AI e AP, PC e ED, alternadamente, pois você podia participar de duas a cada ano ou semestre, não me lembro bem.
Do que me lembro bem é do 1º dia de aula. O páteo cheio de crianças procurando a sua fila. É, fila mesmo. O Vocacional não tinha esse problema de achar que fila é excesso de displina. O Vocacional trabalhava muito a questão da disciplina. Usávamos uniforme, brigávamos pelo comprimento das saias, pelas meias 3/4, pela mudança dos calções de ginástica, alunos eram suspensos, expulsos até, tudo isso existia.
Com um grande diferencial: alunos, professores, coordenadores, supervisores, participavam de todas as decisões. E se acaso um aluno se sentia excluído de alguma decisão, ele imediatamente organizava um grupo de discussões, levava o assunto para a sua equipe, geralmente escolhia um professor para ajudá-lo na sua argumentação, levava a questão para a Orientação Pedagógica, e começava uma tremenda briga cujos argumentos se fundamentavam no conteúdo moral desenvolvido pela própria escola, em salas de aula. Se o caso era grave,e não se achavam soluções, a coisa se expandia para assembléias que por vezes paralizavam as aulas até uma resolução. Fazíamos política. Os professores ficavam realmente preocupados com as colocações que fazíamos, e ao mesmo tempo muito satisfeitos porque eram resultantes do sistema de ensino. As contradições se aglomeravam diáriamente. Direitos, deveres e poderes eram o tema de cada momento. Tínhamos alí uma comunidade organizada, uma sociedade viva. Nada se cristalizava.
O Govêrno Estudantil, por exemplo, foi dissolvido pelos próprios alunos pois a estrutura em que ele se inspirou gerou os mesmos problemas do modêlo: Tínhamos um governador e deputados eleitos através do voto secreto. Nas reuniões da Câmara alguns deputados começaram a faltar, a dormir, uma certa inércia e pouca representatividade começou a tomar conta das sessões. Então fizemos (eu era deputada em 68, com 12 anos de idade)uma consulta pública apresentando o problema à comunidade escolar. Votou-se pela dissolução do GEGEVOA. Não sentíamos a necessidade de representantes, todos tinham voz.
Não éramos "autorizados" a falar. Éramos os donos da palavra, da escola. Tínhamos a compreensão da estrutura à qual pertencíamos. A linha divisória entre professor e aluno era bem definida, ao contrário dessa discussão estéril sobre o papel do professor e o do aluno. Muitos pedagogos atuais diriam que o Vocacional era uma escola conservadora. E era mesmo. Tínhamos princípios, regras, horários, comportamentos,compromisso. Compromisso com uma idéia. Tínhamos certeza de que aquela escola era única, mas que estava a caminho de se tornar a escola brasileira, pois estava dando certo.
O sistema de ensino coordenado pela educadora Maria Nilde Mascelani criou 6 Vocacionais: o do Brooklin, Batatais, Barretos, Rio Claro, Americana e São Caetano do Sul. Cada um tinha suas peculiaridades, adaptava-se ao meio. Aqueles que ficavam em zonas onde a atividade rural era predominante adequavam seus conteúdos e práticas ao meio. A escola era parte integrante da sociedade, interferia e era "interferida".
Foi considerado revolucionário demais pelas autarquias, pelos ruralistas, pelos reacionários, pelos militares, por aqueles que instauraram a ditadura no Brasil, pelo MEC-Usaid:

http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_mec-usaid%20.htm

O Sistema de Ensino Vocacional não tem nada a ver com o conceito técnico que hoje se atribui a essa palavra: Vocacional. Vocacional é vocação, não é treinamento técnico. E tem muito menos a ver com essas aulas de malabarismo circense e Teatro que estão sendo promovidas pela Secretaria de Cultura de S.Paulo, apesar de que o pessoal do Teatro tem feito um trabalho louvável. O Sistema era integrado, não isolado, como esses projetos.
Vocação é tendência, afinidade, reconhecimento, integração. Mas o MEC-Usaid veio para transformar a educação para a economia e sistema do pensamento capitalista.
Segundo Aristóteles, o homem é um animal político. Porque vive em (κοινωνία) comunidade. Não se trata de "comunhão" no sentido religioso aplicado, até poderia ser, mas não pretendo esse caminho. Vivendo em comunidade, nossas ações nunca são ações isoladas, elas repercutem em toda a comunidade. Para melhor ou pior.

O que chamam hoje de "interdisciplinaridade" é algo que se aproxima do que o Vocacional chamava de "integração". Mais fácil de entender, não?
Não pensávamos em "displinas", mas em áreas de conhecimento.Todas as áreas de conhecimento possíveis de serem abordadas na escola se integravam através dos seus conteúdos.
É muito fácil compreender o Sistema de Ensino integrado que o Vocacional praticava, não é necessário ser pedagogo, aliás é melhor que não seja pedagogo mesmo, para entender. O "pedagogismo" é cheio de terminologias classificatórias que seccionam um todo. Já tentei explicar o Vocacional inúmeras vezes para pedagogos, e eles vão repetindo termos técnicos enquanto eu descrevo uma prática, um comportamento, uma atitude inteiramente comprometida com o todo. Como uma aula de anatomia, só falta quererem estudar o cérebro dos ex-alunos do Vocacional.
O que me intriga é ver como o Vocacional desapareceu da memória educacional deste país. É sem dúvida assunto de inúmeras teses, mas desconfio que além da evidente ação dos criminosos reacionários no sentido de apagar da história os registros dessa escola, parte dessa documentação foi tratada como "reserva de tese", algumas delas extremamente equivocadas, por sinal. Numa delas, afirma-se (velha arenga...) que o Vocacional seria totalmente inexequível nos dias de hoje como escola pública, pelo seu "alto custo". Ora, que desinformação absoluta! O prédio do Vocacional do Brooklin, que lá está até hoje, é muito mais modesto do que os CEUS de hoje em dia. Nem se compara, em termos de espaço e estrutura. Nosso maquinário e bancadas das oficinas de AI, nossa Cooperativa, nossa Cantina, Banco, nosso atelier de AP,eram adaptados utilizando a propria construção e dimensão das salas de aula. Quem imagina o Vocacional como essas escolas particulares de hoje, que mais se parecem com hospitais, está muito enganado.
Nossa área de música, por exemplo, era uma sala de aula com um piano e um contrabaixo,este doado pela família de um dos alunos. E carteiras, mesinhas que empurrávamos para os cantos da sala, para ter mais espaço. Eu me lembro até hoje da barulheira que fazíamos para arrumar e desarrumar as carteiras.
E me lembro também de um mutirão coordenado por AI para restauração das carteiras, sábado de manhã, a escola em peso,às 7:15, lixando e envernizando carteiras. Aprendemos as técnicas de lixar com uma madeirinha, de fazer uma boneca de algodão para o verniz. Uma festa.
O fato é que, naquele momento da história brasileira a organização e mobilização para atividades em grupo e coletivas era uma normalidade. Não era preciso criar uma coisa do tipo das que tem hoje: "amigos da escola". O dinheiro que gastaríamos pra comprar novas carteiras, previsto pela Secretaria de Educação, foi usado para outras necessidade da escola. Maria Nilde foi processada por "desvio de verba", por este incidente.
Em 1969 as escolas Vocacionais foram invadidas pelo glorioso exército brasileiro. Em minúsculas mesmo. Os professores foram presos, Maria Nilde foi presa, processada e tudo o mais que a gente sabe, não é... aquelas práticas que os sistemas totalitários gostam de utilizar. Os pais de alunos ficaram apavorados, seus filhos perderiam o ano escolar, além de tudo.
Não sei quem teve a idéia. Não importa. Nos mobilizamos: os alunos das séries mais avançadas davam aulas para os da imediatamente anterior, e assim, sucessivamente. Tínhamos cohecimento de todo o conteúdo que iria ser desenvolvido no bimestre e durante o ano, pois participávamos do planejamento, elaborávamos a proposta de estudo. Sabíamos quais os textos que seriam utilizados. Conhecíamos a didática. A escola era nossa.
Aí foi demais.Interventor na escola pra acabar com essa brincadeira. No Brooklin o interventor era o Pinheiro Machado. Depois eu conto o resto.

P.S.: Qiuando estava editando este texto, vi, com satisfação, que o GVive está seguindo o Blog! O GVive está realizando um intenso e imenso trabalho de recuperação da memória dos Vocacionais.
Aguarde o próximo artigo sobre o Vocacional:"A minúscula esfera de competência do Sr. Pinheiro Machado"

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Canto Coral: Aquele garoto virou mestre

Em termos técnicos, não tenho muito a dizer sobre o Canto Coral. Genéricamente todo mundo sabe o que é um coral: A palavra Coral na acepção de grupo de cantores é comumente usada como sinônimo de Coro: um grupo de pessoas que se reúne para cantar sob a regência de um maestro pode ser denominado como tal. Aquí neste artigo, para nossos fins não me aventuro a definir o gênero, suas origens e desenvolvimento.

O termo Coral foi também históricamnte associado ao protestantismo cujos cantos litúrgicos elaborados por adeptos da igreja luterana, ao contrário do coro gregoriano monofônico católico que neste sentido propunha igualar os homens (mas não as mulheres) perante Deus, desenvolve o Coral enquanto forma musical escrita para várias vozes, ou se utiliza disso. Na verdade, a história é muito maior e tem origens e desenvolvimento vasto mas como não me considero autoridade no assunto, fico por aqui. Há até incrições rupestres que indicam o canto coletivo enquanto atividade, portanto, o caminho é longo.

O que me interessa neste momento é refletir um pouco sobre alguns outros aspectos dessa formação de conjunto musical e seu comportamento em S.Paulo.
Interessante notar que, por princípio, o Coral pressupõe um coletivo artístico envolvendo certa organização: naipes distintos para executar cada voz e um regente, é o básico. Há várias modalidades como coral infantil, feminino, etc. mas o Coral ao qual me refiro é aquele mais tradicionalmente conhecido: sopranos, contraltos, tenores e baixos, às vezes com barítonos e outras subdivisões.

O Coral passou a ser visto, eu diria mal visto, no Brasil dos últimos 20 anos. Não só mal visto como mal ouvido, mal cantado, mal dirigido e talvez isso tenha ocorrido na ordem exatamente inversa deste parágrafo.
Voltando ao aspecto coletivo da idéia não posso deixar de perceber que depois dos anos 60 e 70 muitos outros coletivos perderam sua característica em função do culto à personalidade, ao solista, ao protagonista, à individualidade a qualquer preço, ao auto-conhecimento, à auto-ajuda, ao autor, e fomos bombardeados com um arrasador desfile de egos. Em todos os campos. É claro que muito ganhamos através da manifestação de inúmeras personalidades individuais, mas muito mais perdemos em termos sociais, éticos e estéticos quando essas personalidades atribuem ao coletivo a função de simples expectador e consumidor do seu incrível talento.

Voltando ao Coral:

. há uma certa independência de vozes que, porém não têm sentido quando executadas isoladamente. Melhor dizendo: adquirem um sentido maior quando executadas no conjunto das vozes pois foram escritas para terem sentido no conjunto.

. qualquer pessoa pode cantar num coral. Não se requer daquele que canta nenhum tipo de virtuosismo, apenas princípios básicos da linguagem musical, perfeitamente passíveis de aprendizado e com resultado estético extremamente satisfatório quando bem orientado. A única coisa que se exige do integrante é que tenha voz. Óbviamente, quanto mais esse cantor se aprimorar, isso se refletirá no resultado final. O solista é solicitado para execução de determinadas peças e nesta função é necessária maior profundidade mas no conjunto, o próprio solista tem que fazer um enorme exercício na procura de adaptação ao timbre do naipe, ele não pode se destacar fora do momento certo, caso contrário "mata" a obra.

. não pense porém, o incauto, que esta qualquer pessoa irá cantarolar melodias fáceis, muito pelo contrário: o repertório exige o desenvolvimento da sensibilidade musical, técnica e estética. A boa notícia é que fica mais fácil e agradável em grupo. O grupo envolve outro tipo de relação também com a música.

. A figura do maestro ou regente, que em geral é também o diretor artístico, é fundamental e reconhecida enquanto responsável pela concepção artística da obra. No Brasil há uma confusão de têrmos que não sei se originária da língua ou do conceito mas como uma não anda sem o outro, vale a pena citar: Regente, Maestro, Diretor. Como são termos herdados, acabam se equivalendo, mas "no meio", percebe-se uma certa hierarquia quando se trata de distinguir o Maestro da Orquestra e o regente do coro, aqui em maíusculas e minúsculas propositalmente. Pura questão de preconceito cujas causas podem ser atribuídas ao próprio descaso e despreparo de alguns muitos que passaram a exercer esta função.

Durante os anos 60 e 70 participei de vários corais da cidade de S.Paulo e este foi um dado de extrema importância para o meu aprendizado musical. À existência de tantos grupos correspondia um aumento qualitativo tanto dos cantores quanto dos maestros.
Era muito comum participar, às 3ªs e 5ªs, de um Coral regido pelo Maestro Schnorremberg e às 4ªs e 6ªs de outro, com o Maestro Klaus-Dieter Wolff.
http://www.revista.brasil-europa.eu/116/1968-Vespro-Monteverdi.htm

E de quebra cantar no Madrigal da Pro Arte de S.Paulo e formar mais um outro com os Maestros iniciantes que precisavam de um Coral para seu aprendizado. Além de outras formações, como sextetos, octetos, criados para que pudéssemos ler peças ainda por nós desconhecidas ou contemporâneas.

Em outras palavras ocorria, por parte da juventude uma apropriação dessa cultura musical amplamente apoiada pelos então maestros que abriam esse caminho. Não existia internet, portanto as obras eram conseguidas através de cópias "xerox" de partituras colhidas por eles em seus estudos na Europa e na América do Sul, e que se espalhavam rápidamente entre os interessados: nós, os amadores, uma outra característica bastante importante a se salientar nessa formação. Aos muitos Concêrto sempre comparecia um grande público que lotava os teatros. Corais de outros países da América latina, como um coral do Chile de que agora me lembro com carinho, vinham somar e multiplicar esse entusiasmo.

Paulatinamente, isso foi se acabando. Coral virou qualquer coisa, menos o que realmente deveria ser. Assunto para outro "post". Cantar virou qualquer coisa. Com o tempo abandonei a área, mas ouvia falar de um ou de outro coral que seguia trabalhando mas ao mesmo tempo assumindo posturas bastante distanciadas deste clima.

No teatro, algo muito semelhante acontecia. Do ponto de vista musical, percebia uma enorme dificuldade dos atores para cantar e a interpretação desaparecia no momento em que começava o canto. Os próprios músicos de bandas pop passaram a não abrir mais a boca para cantar, só o vocalista.
Não posso deixar de dizer que durante minhas atividades junto ao teatro, já totalmente afastada do tenebroso cenário do canto coral que se instalou em S.Paulo, tive a felicidade de conhecer o Maestro William Guedes e seu excelente trabalho que me reacendeu a velha chama do "nem tudo está perdido", tanto nas poucas e gratificantes vezes que pude acompanhar, à flauta, o Coral que dirige, como nos diversos espetáculos sob sua direção musical, sempre recheados de arranjos vocais bem elaborados e executados. Parece que, tateando na escuridão deste cenário, o Maestro William Guedes encontrou um caminho, e dos bons.

Ainda na década de 60 um jovem amigo cantor e estudante de regência convidou alguns de seus amigos a formarem um pequeno coral para que ele pudesse praticar e dar continuidade aos seus estudos. Seu nome: Martinho Lutero, e nossa simpatia ao movimento antirracista nos EUA levou-nos a batizar o grupo de "Coral Luther King".
A média de idade deste grupo, incluindo o Maestro, era de 15 anos. Adolescentes de classe média e média-baixa, recém saídos da infância.
Passados 39 anos (em 2009) eu me reencontro com esse Maestro e seu Coral cantando nada mais que a Missa Luba! O Coral Luther King, que hoje compõe a Rede Cultural Luther King, é um raro exemplo de Coletivo que permaneceu durante 40 anos comprometido com a excelêcia não só musical mas de relacionamente entre seus integrantes.

http://www.lutherking.art.br/lutherking/

Imediatamente aderí ao grupo.

Vejo neste Coral os mesmos princípios que fizeram daquelas décadas a escola mais completa de aprendizado musical e de convívio em função da arte. A qualidade do trabalho desenvolvido por este Maestro e seu grupo vem sendo apreciada através dos Concertos que realiza e da escola de formação de novos cantores: Fábrica do som, que fundamenta e garante a continuidade do trabalho. Admirável o trabalho coordenado pelos integrantes da equipe artística que tive o prazer de conhecer. Entre eles,refletindo e transmitindo esse compromisso apaixonado, Sira Milani, excelente musicista e cantora, há mais de 15 anos trata de tudo e de todos com uma dedicação exemplar. E o que significa "atitude exemplar"? Simplesmente um comportamento que está em desuso: Comprometimento com uma idéia, seriedade, prazer e coragem para realizar aquilo em que acreditamos.

Dia 20 de fevereiro passado iniciamos uma série de Concêrtos para inaugurar um espaço e caracterizá-lo como sala destinada à concertos corais: o Anfiteatro do Auditório Ibirapuera.

Convidamos o Collegium Musicum, como um cumprimento a nossos irmãos mais velhos: eles têm 48 anos, enquanto nós, 40, para este primeiro concerto de uma série de dez, e esperávamos receber um tímido público levemente interessado no assunto. Para nossa surpresa compareceram mais de 500 pessoas que permaneceram em estado de tremenda atenção, aplaudindo entusiásticamente cada peça com alegria e receptividade.

Algo me diz que nem tudo o que se apronta na juventude deva ser negado na maturidade. Sempre acreditei que o adolescente é o sujeito mais comprometido com a verdade, ainda que nem sempre ela assim possa ser reconhecida. Não é à toa que sobre a juventude a sociedade exerce uma constante e ferrenha repressão, acabando por transformar idéias maravilhosas e ousadia em cartão de ponto e resignação.
Não é o caso do Maestro Martinho Lutero que converteu sua ousadia em sabedoria quando saiu a correr o mundo em busca de conhecimento e formação humanística e musical, mas garantiu o elo de transmissão desse conhecimento para as novas gerações do seu país de origem.

E então, aquele garoto virou Mestre.

Convido a todos a conhecerem um pouco sobre o trabalho desta Rêde:

http://www.lutherking.art.br/lutherking/

ref: http://www.revista.brasil-europa.eu/116/1968-Vespro-Monteverdi.htm

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010



Em 1974, no melhor estilo anos 70, peguei uma mochila, um cobertor xadrez e algumas roupas e fui, com mais duas amigas, da Estação da Luz para o Peru.
Trem da Morte, Bolívia e finalmente, Cusco. Na verdade este "finalmente" se deu 4 meses depois em Lima quando Pachamama, através de um terremoto de 6 graus, me avisou que já era hora de voltar.

Certa vez o maestro Paulo Herculano, sempre brilhante e provocativo, referiu-se a mim como: - a minha aluna hippie - qualificação por mim negada imediata e veementemente. Ele então argumentou: - Ora, alguém que tem Machu Picchu e Arembepe no currículo só pode ser um pouco hippie - Só me restou dar boas risadas.

Não temos a menor idéia de como irão nos qualificar daqui há 36 anos.O fato é que as classificações surgem depois, como referência histórica para melhor (ou pior) compreendermos uma época, um movimento ou comportamentos.
Em julho de 1974, nenhuma dessas idéias ocupava meus pensamentos. Não tínhamos nenhuma indicação ou plano de viagem, apenas o destino que poderia ser mudado, alongado até a Colômbia ou Galápagos, ou Amazônia.

Uma das amigas era Virgínia Fonseca. Essa é uma pequena homenagem que faço a ela.Ontem ela partiu pra muito, muito longe. Esta foto foi tirada em Lima,1974.Ela não largava do meu cobertor xadrez...Saudades.